
Um sonho que virou projeto. O projeto teve MVP. E a partir de hoje, vira realidade.
No primeiro semestre de 2022, idealizei uma disciplina para a faculdade de medicina da UPF sobre o que eu julgava faltar na formação médica: o conhecimento das tecnologias que estavam chegando à saúde.
Lembrem-se do momento. Era antes do ChatGPT. Antes de qualquer LLM cair no colo do mundo.
Tudo nasceu de uma palestra: “Medicina do Século XXI para alunos do Século XXI”.
Amparado pelo know-how de Bertalan Meskó, o Medical Futurist que dirige o The Medical Futurist Institute, nascia a disciplina Saúde Digital. Optativa, na origem.
Por semestres, montei a melhor grade que consegui. Reuni os melhores nomes de cada assunto que me era próximos.
O MVP foram as turmas anteriores. Pequenas, no começo. Foi ali que testei, errei, ajustei e treinei.
A grade tentava cobrir o que vinha pela frente: inteligência artificial, robótica e telemedicina. Genômica e edição genética. Medicina de precisão. Realidade virtual. Wearables e sensores. Dados em saúde e o velho embate entre value-based care e fee for service.
Mas aprendi rápido que Saúde Digital não é uma disciplina sobre gadgets. E os números explicam por quê.
A OMS estima uma falta de 4,3 milhões de profissionais de saúde no mundo. O mercado de saúde digital cresce a 27,9% ao ano e deve chegar a US$ 833 bilhões até 2027. A tecnologia não é uma opção que a medicina pode recusar. É o terreno onde ela já pisa.
Mas tem um número que fica na cabeça.
Dar o aparelho não basta. Num estudo com pacientes de apneia do sono, quem teve acesso aos próprios dados por um app usou o CPAP em média 46 minutos a mais por noite. A adesão subiu para 81%, contra 68%. A tecnologia só rendeu quando veio acompanhada de gente.
É a diferença entre monitorar e cuidar.
E quando a medicina não acompanha, o paciente vai sozinho. Diabéticos cansados de esperar criaram, em casa e sem nenhuma validação, um pâncreas artificial faça-você-mesmo. Batizaram o movimento de #WeAreNotWaiting.
Não estavam esperando. E não vão esperar.
Colocar uma tecnologia na mão de alguém nunca melhorou desfecho nenhum. O próprio Bertalan Meskó já tinha escrito: saúde digital é, antes de tudo, uma transformação cultural, não tecnológica.
A saída do modelo paternalista, em que o médico decide sozinho, para uma parceria real entre médico e paciente. O paciente vira o ponto de cuidado. Os dados passam a ser dele.
A disciplina inteira é uma tentativa de responder isso ao lado dos alunos.
E não sou só eu dizendo isso.
Um estudo dinamarquês (Khurana e colegas, BMC Medical Education, 2022) reuniu 18 especialistas para decidir, pelo método Delphi, o que um estudante de medicina precisa aprender de saúde digital. Partiram de 113 artigos e 65 temas.
O que eles elegeram como prioridade não foram as habilidades técnicas. Modelagem matemática, robótica e impressão 3D ficaram para trás.
No topo vieram os temas de atitude: ética digital e o impacto da tecnologia na relação médico-paciente.
Traduzindo: o papel do médico não é construir a tecnologia. É entender o que ela faz com o cuidado.
Os mesmos autores registram outro ponto. Onde a saúde digital já chegou às faculdades, ela costuma entrar como optativa e sobre um assunto estreito. Solta. Fora da grade.
Foi exatamente desse ponto que eu parti.
Em 2022, falar dessas coisas numa faculdade de medicina soava a futurismo. Quatro anos depois, virou o presente que não pediu licença para chegar. A partir de hoje, a Saúde Digital deixa de ser optativa. Passa a fazer parte da formação médica na UPF.
A escola médica sempre formou para a medicina que existe. A minha aposta foi formar para a que está chegando.
A partir de hoje, deixou de ser aposta.
O que uma faculdade de medicina precisa ensinar para o médico que ainda vai existir: é sobre isso que sigo escrevendo. Texto completo em bittencourt.blog Substack: franciscomdebittencourt.substack.com. Links na bio.
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