“Once men turned their thinking over to machines in the hope that this would set them free. But that only permitted other men with machines to enslave them.”
Frank Herbert, Dune, 1965.

Herbert escreveu isso sessenta e um anos atrás. Não sobre inteligência artificial. Sobre dependência cognitiva.
A frase é de ficção científica, mas o problema é real, presente e mensurável. A ciência cognitiva está começando a confirmar o que a ficção intuiu: quando delegamos o trabalho mental a uma máquina, não ficamos mais livres. Ficamos mais frágeis.
O bisturi e o algoritmo
Sou cirurgião plástico. Na minha especialidade, a habilidade técnica não se adquire lendo sobre ela. Adquire-se repetindo, testando de forma controlada, calibrando a mão sob supervisão e repetindo mais. Milhares de vezes. Até que o gesto se torne sua natureza.
Essa lógica vale para qualquer habilidade clínica. E é exatamente aí que a IA encontra seu ponto cego mais perigoso.
Um estudo publicado no The Lancet Gastroenterology & Hepatology em 2025 acompanhou endoscopistas antes e depois da introdução de uma ferramenta de IA para detecção de adenomas durante colonoscopias. Nos três meses antes da IA, os médicos detectavam adenomas em aproximadamente 28,4% dos pacientes. Depois de três meses usando a IA, quando a ferramenta era retirada aleatoriamente em alguns exames, a taxa de detecção caiu para 22,4%.
Os médicos não ficaram piores porque esqueceram a teoria. Ficaram piores porque pararam de praticar o olhar.
Isso tem nome na ciência cognitiva: skill decay. Quando você terceiriza uma habilidade, ela atrofia. Não importa se você a dominou antes. Sem prática, o desempenho cai. E na medicina, queda de desempenho não é nota baixa na prova. É diagnóstico perdido.
O cérebro que para de trabalhar
O fenômeno não se limita à clínica. Um estudo do MIT Media Lab monitorou a atividade cerebral de 54 participantes via eletroencefalograma enquanto escreviam ensaios. Três grupos: um com acesso ao ChatGPT, outro com busca no Google e um terceiro sem qualquer recurso digital.
O grupo que usou ChatGPT apresentou a menor ativação cerebral em todas as sessões. E essa ativação diminuiu progressivamente ao longo do experimento. Os participantes ficaram cognitivamente mais passivos com o uso repetido. Muitos terminaram copiando e colando respostas sem modificação. Quando pediram que reescrevessem um de seus ensaios anteriores sem acesso à IA, quase nenhum lembrava do conteúdo que havia “produzido”.
Não aprenderam. Não retiveram. Não processaram. Delegaram.
O artigo de Cash, Kelly, Macnamara e Risko publicado este ano na Trends in Cognitive Sciences sintetiza o problema com uma distinção que deveria estar em toda sala de aula de medicina: a diferença entre habilidades e capacidades cognitivas básicas.
Habilidades são aprendidas e mantidas com prática. Se você para de praticá-las, elas declinam. A IA acelera esse declínio quando assume a execução no lugar do profissional. As capacidades cognitivas básicas, como memória de trabalho e atenção seletiva, parecem mais resistentes. Mas “mais resistentes” não significa imunes. E ninguém sabe ainda o que acontece com essas capacidades depois de décadas de delegação cognitiva.
A geração que nunca praticou
Esse risco não é teórico. Já está acontecendo em escala.
Jared Cooney Horvath, neurocientista, declarou em depoimento ao Senado dos Estados Unidos que a Geração Z é a primeira na história moderna a pontuar abaixo da geração anterior em testes padronizados de habilidades cognitivas. Dados do PISA, avaliação internacional com jovens de 15 anos, mostram correlação entre tempo de uso de tela em sala de aula e queda no desempenho em leitura e matemática. Os Estados Unidos investiram mais de 30 bilhões de dólares substituindo livros por laptops. O resultado não foi acesso ao conhecimento. Foi atrofia da capacidade de adquiri-lo.
Outro estudo, publicado na PNAS por Bastani e colaboradores, testou alunos do ensino médio aprendendo um conceito matemático novo com e sem acesso a IA. Os alunos com acesso à IA tiveram desempenho superior durante a prática. Quando a IA foi retirada na avaliação final, esses alunos se saíram pior do que os que nunca tiveram acesso. A IA não os ajudou a aprender. Impediu. Lembram dos endoscopistas?
A exceção veio de um terceiro grupo que usou a IA como tutora, não como resolvedora. Em vez de entregar respostas, o sistema fazia perguntas, identificava lacunas no raciocínio e orientava o estudante a chegar à solução por conta própria. Esse grupo não teve queda de desempenho quando a IA foi retirada. A habilidade se manteve.
A diferença não é usar ou não usar IA. É como se usa.
A coruja no ombro
Christopher Dede, pesquisador de educação em Harvard, formulou uma pergunta que ficou comigo: Inspirado na Atena, a deusa grega da sabedoria, que sempre é representada com uma coruja no ombro. A pergunta que ele faz é a IA pode ser essa coruja para nós e nos ajudar a ficarmos mais inteligentes?
A resposta dele é condicional. E é melhor que a pergunta: a coruja pode ajudar, desde que fique no ombro. O problema começa quando invertemos a posição e nos sentamos no ombro dela.
Karen Thornber, diretora do Bok Center for Teaching and Learning em Harvard, comparou o efeito da IA ao GPS. Quem aprendeu as ruas de uma cidade antes do GPS conhece o mapa. Quem sempre usou GPS conhece a rota, mas não a cidade. Perdeu a orientação quando perde o sinal. A mesma lógica se aplica ao raciocínio clínico: se o médico sempre teve a IA para sugerir o diagnóstico diferencial, o que acontece quando ela falha? Quando o sistema cai? Quando o caso não está nos dados de treinamento?
O que isso muda na minha sala de aula
Ensino Saúde Digital para alunos do oitavo semestre de medicina na UPF. Meus alunos estão a dois anos da residência médica. Vão entrar num sistema que já oferece IA para triagem, para apoio diagnóstico, para interpretação de exames.
A pergunta que me cabe como professor não é se eles devem usar essas ferramentas. Devem. A pergunta é se vão conseguir funcionar sem elas.
Se a formação médica permitir que a IA substitua a prática clínica supervisionada, teremos uma geração de médicos que pensa bem com assistência e mal sem ela. E isso, na medicina, é uma fragilidade inaceitável.
O artigo da Trends in Cognitive Sciences termina com uma lista de perguntas abertas. Uma delas me interessa mais que as outras: existem fases do desenvolvimento em que delegar cognição à IA é particularmente prejudicial?
Não tenho a resposta. Mas tenho uma suspeita forte: a graduação médica é uma dessas fases. É quando se forma o raciocínio clínico, a capacidade de reconhecer padrões, a habilidade de tomar decisões sob incerteza. Se a IA ocupar esse espaço antes que o aluno tenha construído o alicerce, não há ferramenta que substitua o que não foi formado.
Herbert escreveu sobre máquinas que prometiam liberdade e entregaram dependência. Sessenta anos depois, a ciência cognitiva está medindo exatamente isso. A pergunta não é se a IA nos tornará mais burros. É se vamos deixar.
Referências:
Cash, T.N., Kelly, M.O., Macnamara, B.N. & Risko, E.F. (2026). Is AI making us stupid? Trends in Cognitive Sciences.
Budzyń, K. et al. (2025). Endoscopist deskilling risk after exposure to artificial intelligence in colonoscopy. The Lancet Gastroenterology & Hepatology, 10, 896-903.
Bastani, H. et al. (2025). Generative AI without guardrails can harm learning. PNAS, 122.
Kos’myna, N. (2025). Your Brain on ChatGPT. MIT Media Lab.
Horvath, J.C. (2026). Depoimento ao Senate Committee on Commerce, Science and Transportation.
Harvard Gazette (2025). Is AI dulling our minds?
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