A cirurgia plástica sempre ocupou o espaço entre o que o paciente é e o que ele quer ser. O bisturi preencheu esse espaço por décadas. A inteligência artificial começa a preenchê-lo agora. E a edição genética pode ser o próximo passo — com perguntas que a medicina ainda não está fazendo com a seriedade que merecem.

Em junho de 2026, a empresa Life Biosciences, de Boston, administrou o primeiro tratamento de reprogramação celular em um ser humano. A terapia, chamada ER-100, usa um vírus modificado para entregar instruções genéticas diretamente às células do nervo óptico, com o objetivo de fazê-las se comportar como células jovens novamente. O estudo trata glaucoma. Mas o que está em jogo é muito maior do que a pressão ocular.
No mesmo período, uma revisão de 235 estudos publicados entre 2016 e 2024 na revista Aesthetic Plastic Surgery mapeou como a inteligência artificial já opera dentro da Cirurgia Plástica. De forma parcial, ainda. Mas de forma real, com resultados concretos, com limites documentados e com vieses que precisam ser nomeados.
São dois mundos que ainda não se tocaram. Vão se encontrar. E a cirurgia plástica vai estar no centro desse cruzamento.
A revisão bibliométrica analisou uma década de pesquisa. As aplicações são concretas. Uma mulher que perdeu a mama ao câncer chega à cirurgia de reconstrução carregando muito mais do que um diagnóstico. O retalho DIEP — Deep Inferior Epigastric Perforator, retalho abdominal nutrido pelos vasos perfurantes da artéria epigástrica inferior — é uma das cirurgias mais complexas da especialidade. Errar no mapeamento dos vasos significa comprometer o retalho. Comprometer o retalho significa começar tudo de novo, se houver condições para isso. O VoNavix usa angiotomografia para mapear em 3D o que antes só era descoberto com o bisturi já na pele. Sistemas de avaliação de risco completam esse planejamento, identificando antes da cirurgia quem tem condições clínicas reais de chegar ao fim dela.
Não uso nenhuma dessas ferramentas no consultório hoje. Poucos cirurgiões brasileiros usam. Há boas razões para isso.
Os resultados ainda são limitados. A maior parte dos estudos foi conduzida com bases de dados pequenas, pouco diversas, treinadas em padrões estéticos predominantemente ocidentais. Um algoritmo calibrado com imagens de mulheres caucasianas não funciona da mesma forma para uma paciente brasileira, asiática ou negra. A revisão é explícita nesse ponto: viés nos dados de treinamento é um dos maiores obstáculos da área.
Tem outro problema, mais sutil: a dependência excessiva. Sistemas de IA são úteis quando auxiliam o raciocínio clínico. Tornam-se perigosos quando tentam substituí-lo. A decisão cirúrgica integra variáveis que nenhum algoritmo captura completamente: o contexto do paciente, suas referências culturais, a anatomia individual, a percepção tátil durante o procedimento.
A IA amplia o olhar e, por enquanto, não substitui. Mas o campo está apontando para além disso.
A reprogramação celular existe como conceito desde 2006, quando o pesquisador japonês Shinya Yamanaka demonstrou ser possível transformar células adultas em células-tronco ativando genes específicos. O trabalho lhe rendeu o Nobel de Medicina em 2012. O risco, então e agora, é fazer a célula retroceder longe demais, perdendo função original ou virando cancerígena.
A reprogramação parcial usada pela Life Biosciences tenta um equilíbrio delicado: empurrar a célula de volta no tempo o suficiente para restaurar características jovens, sem apagar sua identidade. David Sinclair, geneticista de Harvard e cofundador da empresa, defende que o envelhecimento é, em grande medida, resultado da perda de informação epigenética e não de danos irreversíveis no DNA. Se essa teoria se confirmar, restaurar essa informação poderia tratar doenças e, eventualmente, reverter marcas do envelhecimento em tecidos específicos.
A cirurgia plástica habita exatamente esse território.
Tecidos que perdem volume. Pele que acumula marcas epigenéticas que o bisturi pode reposicionar, mas não regenerar. A pergunta que começa a ser formulada, ainda com timidez, é: e se pudéssemos não apenas reposicionar, mas reprogramar?
Isso tem ensaios clínicos aprovados pelo FDA, financiamento crescente e resultados promissores em animais. O campo está em movimento.
IA e edição genética não são tecnologias separadas nesse contexto. São complementares. A inteligência artificial analisa grandes volumes de dados biológicos para identificar padrões epigenéticos ligados a características específicas do tecido. A edição genética usa essas informações para intervir com precisão molecular. No campo oncológico, essa combinação já existe. Na dermatologia experimental, começa a aparecer. Na cirurgia plástica, ainda é território aberto.
É exatamente aí que o debate precisa começar.
Sou favorável a que esse debate aconteça. Agora. Embora a empolgação não possa dispensar as perguntas difíceis. E mais, quem terá acesso a essas tecnologias? Se a IA já reproduz padrões de beleza ocidentais em detrimento de outros, o que acontece quando transferimos essa lógica para a edição genética de tecidos? Modificar características estéticas em nível celular é uma extensão natural da medicina estética ou cruza uma linha que a medicina não deve cruzar?
Matt Kaeberlein, cofundador da Optispan e pesquisador em medicina preventiva com foco em longevidade, resume o dilema com precisão: a pesquisa antienvelhecimento tem grande potencial, se puder ser feita com segurança. A tecnologia ainda é muito nova. O risco de efeitos colaterais sérios é real.
Esse é o momento de ter essa conversa. Antes de as ferramentas chegarem ao mercado privado. Não depois.
A Cirurgia Plástica nunca foi só técnica. Sempre foi julgamento. Entender o que o paciente quer, avaliar o que é viável e ter clareza sobre o que não deve ser feito. Isso persiste com a IA. Persiste com a edição genética. O que muda é a complexidade do contexto em que esse julgamento precisa ser exercido.
Cirurgiões que ignorarem essas tecnologias vão tomar decisões clínicas com informações incompletas. Cirurgiões que as adotarem sem senso crítico vão reproduzir e ampliar seus vieses.
Tecnologias mudam o que é possível. Só o julgamento médico define o que deve ser feito.
A pergunta sobre quem vai ter acesso a essas tecnologias — e quem vai definir os limites — não cabe num post.
Texto completo em bittencourt.blog
Substack: franciscomdebittencourt.substack.com — links na bio.
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