Já é chegada a hora em que cirurgiões precisam ser treinados como pilotos de avião.
Imagine-se entrando num avião no qual o piloto nunca treinou vôos em simuladores realísticos em solo e não colocando a vida de ninguém em risco. Você toparia? Creio que não.
E você, gostaria de ter como cirurgião, um médico, com formação prática aquém da possibilidade e ele estar no “comando” de sua cirurgia? Também creio que não.
Um estudo da Universidade de Michigan descobriu que cerca de 30% do cirurgiões recém formados não tinham habilidades necessárias para realizar cirurgias sozinhos, mesmo após a residência médica.
Com a abertura desenfreada de novas faculdades de Medicina no país e programas de residência médica com qualificações questionáveis, a preocupação com a formação dos cirurgiões deve ser ainda maior. A disparidade parece ser grande. Em serviços de ponta, médicos residentes realizam o número de cirurgia preconizado pelo MEC para que saiam com uma formação adequada. Já em outros, a formação pode não ser completa.
A partir desse cenário, podemos “tomar” dos programas e faculdades de formação de pilotos de avião a experiência já aprendida e transportar para a Medicina, no caso, para a cirugia.
Todo o piloto, para chegar o momento de pilotar um avião, precisa de horas num simulador, passar por testes e, somente após, sentar em frente ao manche de um avião. Como co-piloto.
A proposta de vários autores é criar um programa de treinamento para jovens residentes em cirurgia utilizando a realidade aumentada(AR) e a realidade virtual(VR) durante seus anos de formação.
A VR, por definição, é o uso de tecnologia computacional para criar um ambiente simulado, colocando o usuário imerso numa experiência. Essas plataformas abordam diretamente lacunas de habilidades, fornecendo treinamento prático e imersivo que simula de perto o ambiente de uma sala de cirurgia. Além disso, essas plataformas de realidade virtual oferecem treinamento portátil e sob demanda que pode ser usado a qualquer hora e em qualquer lugar.
O uso desses simuladores cirúrgicos pode, além de melhorar a prática cirúrgica, monitorar e apresentar relatórios do desempenho e apontar detalhes que devem ser aperfeiçoados. Isso vai muito além do que um médico preceptor pode contribuir.
O professor Robert Watcher, em seu livro The Digital Doctor, passou um dia inteiro no centro da Boeing, em Seattle, utilizando o simulador da empresa para entender como a simulação funciona e ainda como replicar seus aprendizados na Medicina.
Sabemos que a formação médica está muito atrás das inovações tecnológicas. Elas e os novos dispositivos médicos vêm para melhorar qualidade no atendimento em saúde e para salvar vidas.
Outro recente estudo em procedimentos ortopédicos realizado pela UCLA comprovou a eficiência do treinamento em VR com o uso da plataforma Osso VR. O grupo treinado com VR em relação ao grupo treinado tradicionalmente teve uma melhoria geral de 230% na pontuação total. Os participantes treinados em VR concluíram o procedimento em média 20% mais rápido do que o grupo treinado tradicionalmente. Eles também concluíram 38% mais etapas corretamente na lista de verificação específica do procedimento.
Claro, novos estudos estão em andamento e precisam replicar esses resultados. Claro, são tecnologias caras e a mudança de paradigma não será facilmente aceitada, como tudo na Medicina, mas a segurança nas cirurgias e a vida humana devem ser prioridades e tem um custo muito mais elevado.
Portanto, o cenário cirúrgico em rápida evolução atualmente exige novas maneiras de fornecer acesso à educação cirúrgica experimental. Além disso, devemos formalizar nossa abordagem de avaliação técnica para medir de forma mais objetiva as capacidades dos cirurgiões, garantindo um nível consistente de qualidade e um conjunto de habilidades padronizado de nossa força de trabalho cirúrgica.
