O que estamos dispostos a destruir para treinar a máquina

Arcanum Philosophiae book with glowing symbols and binary code
Arcanum Philosophiae book with glowing symbols and binary code
An ornate philosophy book glows with swirling mathematical symbols and binary code in a candlelit library.

O caso Anthropic não é sobre livros. É sobre o limite que aceitamos cruzar em nome do progresso.

A pergunta certa sobre inteligência artificial quase nunca é técnica. Ela é anterior. E foi essa a pergunta que Elaine Coimbra, CEO da Foster/Grupo WPP e professora de inteligência artificial, jogou na mesa: o que estamos dispostos a destruir para treinar uma “máquina”?

Vale começar pelos fatos, porque a indignação costuma atropelá-los.

Para alimentar seus modelos, a Anthropic comprou milhões de livros físicos, cortou as “lombadas”, digitalizou as páginas e descartou o papel. Um exemplar comprado, transformado em arquivo, foi jogado fora. Escrito assim, soa como vandalismo cultural. A imagem de livros sendo destruídos mexe com qualquer um que ame um livro.

Mas veja o que a Justiça decidiu.

A distinção que quase ninguém leu

Em junho de 2025, o juiz William Alsup, da corte federal da Califórnia, deu a primeira grande decisão sobre uso de obras protegidas no treinamento de IA. E foi cirúrgico. Comprar um livro legalmente, digitalizá-lo e usá-lo para treinar um modelo é uso legítimo, ainda que o exemplar físico se perca no processo. Destruir o papel que você pagou não é o crime.

O crime foi outro.

A mesma Anthropic também baixou cerca de 7 milhões de livros piratas, de repositórios como LibGen. Isso o juiz não aceitou. E foi exatamente por isso, não pela digitalização, que a empresa fechou o maior acordo de direitos autorais da história americana: US$ 1,5 bilhão, algo perto de US$ 3.000 por obra, para cerca de 500 mil títulos.

Repare na diferença, porque ela é tudo. Destruir um livro que você comprou para escaneá-lo, a lei permitiu. Usar cópias ilegais de sete milhões, não.

Quem para na manchete “a IA destrói livros” perde a questão real. O incômodo legítimo não está na digitalização de um exemplar comprado. Está na pressa de abastecer o modelo a qualquer custo, inclusive pirateando uma biblioteca inteira e em depois pedir perdão com um cheque.

Dataísmo, o nome da fome

Yuval Noah Harari, historiador e autor de Homo Deus, batizou de dataísmo a ideologia silenciosa do nosso tempo: a crença de que o fluxo de dados é o valor supremo e que reter informação é quase um pecado. No dataísmo, tudo que existe deveria ser medido, capturado e alimentado ao sistema. O livro, a foto, o prontuário, a conversa. Tudo é combustível.

É uma crença sedutora porque funciona. Modelos maiores, treinados com mais dados, entregam mais. A lógica empurra sempre na mesma direção: mais e mais rápido , depois, pergunte-se sobre a permissão.

O caso Anthropic é o dataísmo encontrando um muro. Um juiz, um processo, 1,5 bilhão de dólares. Só que o muro é jurídico e a pergunta da Elaine não é. A lei diz o que é permitido. Ela não diz o que é certo. São coisas diferentes e confundi-las é o erro do nosso século.

Porque o tribunal responde caso a caso, depois do fato. A decisão de quanto atropelar para chegar antes é tomada muito antes, na sala onde ninguém está olhando.

Por que isso me interessa como médico?

Não escrevo isso de fora. Trabalho na fronteira entre a medicina e a computação (literalmente) e o dilema que parece de editoras é, na saúde, o meu.

A IA médica tem fome dos mesmos dados que juramos proteger. O prontuário, a imagem de exame, o histórico, o consentimento, o vínculo. Cada avanço real em diagnóstico por imagem, em previsão de risco, em medicina de precisão, foi construído sobre montanhas de dados de pacientes. E a mesma tentação do dataísmo bate à porta: alimente o modelo com tudo o que existir, do jeito mais rápido e resolva a ética depois.

A diferença é o que está em jogo. Um livro pirateado custa direitos autorais. Um dado de saúde vazado custa a intimidade de uma pessoa doente, no momento em que ela está mais frágil. O consentimento, na medicina, não é papelada. É a linha que separa cuidar de usar.

Já vimos esse filme sem IA. Sempre que a promessa de um bem maior apareceu, houve quem quisesse pular a etapa do consentimento, do comitê de ética, da pergunta incômoda. A história da pesquisa médica é feita, em parte, de arrependimentos sobre atalhos que pareciam justificáveis na hora.

A IA só aumenta a escala e a velocidade da tentação. O atalho agora processa milhões de registros num fim de semana.

O limite não é da máquina

Aqui está o ponto que a Elaine viu e que o barulho abafa.

A tecnologia não decide o que é aceitável destruir. Ela não tem limite próprio. Um modelo treina com o que você der, sem perguntar de onde veio. A capa arrancada, o livro pirata, o dado sem consentimento, para o algoritmo é tudo a mesma linha de texto.

Quem coloca o limite somos nós. No código que escrevemos, no dado que decidimos não usar, na pergunta que fazemos antes e não depois. O limite é uma escolha humana, feita a montante, quando ninguém ainda cobra.

E essa escolha não terceiriza para o jurídico, nem para o mercado, nem para a máquina.

O que estamos dispostos a destruir para treinar a IA é, no fundo, uma pergunta sobre quem somos quando o progresso oferece um atalho. A resposta não vem no tribunal. Vem antes.

Texto completo e a versão em newsletter: bittencourt.blog e no Substack: franciscomdebittencourt.substack.com

Fontes: Bartz v. Anthropic, decisão de mérito do juiz William Alsup (Corte Distrital do Norte da Califórnia, jun/2025) e acordo de US$ 1,5 bilhão homologado em 2026 (Authors Guild; Wiggin and Dana LLP).

Sobre o dataísmo: HARARI, Yuval Noah. Homo Deus: uma breve história do amanhã. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.


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