Existem três médicos possíveis na era da inteligência artificial. Só um sobrevive à próxima década.

Human hand and robotic tool repairing an illuminated anatomical heart

A inteligência artificial(IA) não vai separar bons médicos de maus médicos.

Vai selecionar três tipos de médico. Dois deles perderão espaço mais rápido do que imaginam.

Todo mundo enfrenta essa bifurcação agora, em qualquer profissão. Só que na medicina o erro custará mais caro. Não é uma imagem malfeita ou um paciente perdido. É um diagnóstico que chega tarde ou um alerta que ninguém deveria ter ignorado.

De um lado está o médico que recusa a tecnologia inteira. Chama o algoritmo de triagem de modismo, evita o robô cirúrgico, trata a telemedicina como medicina de segunda categoria. Costuma se orgulhar disso. Esse, o Purista.

Do outro lado está o médico que terceirizou o julgamento. Aceita o resultado do algoritmo sem perguntar nada, segue o alerta do sistema sem checar o paciente, deixa a máquina decidir o que só cabia a ele decidir. Já esse, o Autômato.

Os dois erram do mesmo jeito. Só que por caminhos opostos.

O que Aristóteles já sabia sobre isso

Aristóteles, filósofo grego, dividia o conhecimento em três partes. Episteme é a teoria, o saber universal. Techne é a habilidade técnica, o domínio de uma ferramenta ou de um ofício. Phronesis é o julgamento prático, a sabedoria aplicada a um caso concreto que nunca se repete exatamente igual.

IA, robótica e telemedicina são techne. Capacidade técnica pura.

Não carregam phronesis nenhuma. Não sabem quando desconfiar de um resultado, quando o protocolo não serve para aquele paciente específico, quando o silêncio do exame físico diz mais do que qualquer dado na tela.

O Purista tenta viver só de phronesis, sem techne. Vira faro clínico desinformado.

O Autômato adota a techne e larga a phronesis. Vira execução cega de um protocolo que ele nem entende direito.

Quando recusar a ferramenta é negligência

Em 2024, pesquisadores do Stanford Center for Digital Health publicaram na npj Digital Medicine uma metanálise de 12 estudos e mais de 67.000 avaliações de lesões de pele. Sem apoio de IA, a sensibilidade dos médicos ficou em 74,8% e a especificidade em 81,5%. Com apoio de IA, subiram para 81,1% e 86,1%. O ganho foi maior entre quem menos domina a técnica: estudantes de medicina, enfermeiros e clínicos gerais melhoraram cerca de 13 pontos na sensibilidade, contra uma melhora bem menor entre os dermatologistas.

Recusar essa ferramenta em nome da tradição não é prudência. É negligência disfarçada de sabedoria.

Quando confiar cegamente também mata

O oposto erra do mesmo jeito.

Em 2021, pesquisadores da Universidade de Michigan publicaram na JAMA Internal Medicine uma validação externa do Epic Sepsis Model, algoritmo proprietário usado em centenas de hospitais americanos para prever sepse. No limiar recomendado pelo próprio fabricante, o modelo identificou corretamente 33% dos casos reais. Deixou passar 67% dos pacientes que de fato desenvolveram sepse e ainda disparou alertas em quase um quinto de todas as internações.

Isso tem nome na literatura de segurança do paciente: viés de automação. É a tendência de aceitar a sugestão do sistema mesmo quando ela contradiz o exame, a história clínica e a própria experiência do médico.

Os médicos que tratavam cada ausência de alerta como tranquilidade e cada alerta como verdade validada estavam praticando techne sem phronesis. A consequência não foi abstrata. Foram os 1.709 pacientes que o próprio estudo mostrou: o algoritmo ficou em silêncio e quem confiava só nele não viu a sepse chegar a tempo.

O terceiro tipo

Existe um terceiro médico, o polímata. Ele usa a ferramenta inteira, mas nunca larga o julgamento. Trata o resultado do algoritmo como mais um dado a examinar, não como veredito.

Esse terceiro tipo não é o meio-termo covarde entre os outros dois. É o único que decide as duas coisas ao mesmo tempo: quando usar a técnica e o que fazer com o que ela entrega.

O que muda na prática

Ser bom médico agora é saber, caso a caso, quando confiar na ferramenta e quando desconfiar dela.

Na cirurgia, o braço robótico corrige tremor e ganha precisão que a mão sozinha não alcança, mas não decide a indicação nem improvisa quando o plano muda no meio do procedimento. Isso continua sendo trabalho do cirurgião.

Hospitais compraram sistemas robóticos assumindo que a tecnologia sozinha melhoraria o resultado. Não melhora. Na mão de quem não sabe quando não operar, o robô só torna o erro mais preciso e mais caro.

Na telemedicina, a consulta remota multiplica o alcance e economiza o tempo e dinheiro de quem mora longe, mas não substitui o exame físico quando o caso pede. Saber a diferença é phronesis. Não é protocolo.

As faculdades formam bons operadores de ferramenta. Ensinam (ou deveriam) a interpretar o exame, seguir o algoritmo, confiar no dado. Formam poucos médicos preparados para desconfiar do próprio protocolo na hora certa.

Ensino Saúde Digital para médicos em formação na UPF. O padrão se repete a cada turma: quem domina qualquer ferramenta trava exatamente na hora de questionar o resultado que ela entrega.

Isso devia mudar antes que a próxima geração de ferramentas chegue.

A convicção

O purista perde para quem usa a ferramenta. O autômato perde para quem ainda pensa.

Sobra o médico que faz as duas coisas ao mesmo tempo. Esse atravessa a próxima década inteiro.

A pergunta que fica sem resposta fácil é quem vai ensinar phronesis a uma geração de médicos treinada, sobretudo, para confiar no dado.

Texto completo em bittencourt.blog e no Substack: franciscomdebittencourt.substack.com


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