Médicos serão obsoletos em 2030?O Dr. IA será dominante?

Physician studying abstract medical AI interface

Opinião!

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Em uma perspectiva publicada no JAMA em 17 de agosto, Emanuel et al. argumentam que, Emanuel et al argumentam que a Inteligência Artificial (IA) estará pronta para desbancar médicos em 2030. Pelo menos nas 5 tarefas cognitivas que são características de todos os médicos: (1) coleta de informação clínica; (2) diagnóstico diferencial; (3) Seleção de exames; (4) Tratamento conforme diretrizes; e (5) manejo de doenças crônicas.

Tive o cuidado de ler e reler. Analisar e chegar a algumas conclusões – e serei arrojado, nem a IA chegaria a algumas.

É claro que a IA será – é – melhor que humanos em muitas tarefas. Todos nós já sabemos. Embora, eu acredito que boa parte é por deixarmos de fazer o que realmente deve ser feito, Medicina per se.

Uma anamnese bem feita, associativa, ouvindo paciente é a pedra fundamental mais básica do ato médico. Pois se não vejamos, um estudo  revelou que os médicos tendem a interromper o relato de seus pacientes após 11 segundos do início da anamnese. ONZE segundos. Além disso, precisam investigar, anotar as informações ouvidas. Há ainda a questão de terem que se esmerar em poucos minutos, pressionados pelo sistema, a atender um número imenso de pacientes em pouco tempo.

Essas questões conectam à próxima habilidade que é claro que a IA já supera seres humanos em diversas tarefas específicas, mas é preciso cuidado ao transformar desempenho em tarefas isoladas de superioridade sobre a medicina como prática. Se não há habilidade, tempo para uma boa anamnese, como chegar a uma hipótese diagnóstica? E diagnósticos diferenciais? Na faculdade, ouvi uma frase  de um professor “o médico só encontra o que ele procura e ele só procura o que conhece”. Se não “conheceu” com detalhes o paciente, o que ele encontrará? E aqui, recai exatamente onde muito dificilmente a IA será superior. Médicos sabem – ou deveriam saber – que entre a anamnese e a formulação de hipóteses diagnósticas, há o exame físico. Há estudos recentes nos quais uma IA conversacional AIME do Google, orientou e avaliou, por vídeo, algumas manobras de exame físico simulado. Isso está muito distante de demonstrar que a IA substitui o exame físico presencial, esse Toque de Médico, só o humano tem. Afinal, uma anamnese bem conduzida, associativa e atenta continua sendo uma das bases do ato médico.

E, numa busca obscurecida por uma consulta insuficiente, fica complicada a seleção de exames complementares para corroborar ou afastar a hipótese diagnóstica. Não devemos esquecer dos princípios da anamnese publicados no papiro de Edwin Smith, dois milênios antes de Cristo, onde descrito pela primeira vez o processo de diagnóstico de doenças foi descrito, nem ignorar os ensinamentos Oslerianos do início do século passado. E, mais recentemente, nosso mais famoso mestre em semiologia, Celmo Celeno Porto, sistematizou todo esse processo em seu livro.

Quanto ao tratamento de doenças conforme diretrizes, é sabido que há uma superestimativa sobre o número de horas que um médico deveria estudar para se manter atualizado, mas um estudo revelou que 627 horas/mês é o número. Humanamente impossível, mas muito factível se estudos ficassem em apenas uma especialidade e se o sistema híbrido médicos-IA fosse bem aceito por nós humanos, já que 75% dos estudos com médicos demonstraram aversão algorítmica, decidem mal quando decidem confiar em IA.

Em determinadas tarefas, a intervenção humana pode reduzir o desempenho de uma IA que, isoladamente, é superior — sobretudo quando o profissional não consegue calibrar adequadamente sua confiança na recomendação algorítmica. E, sem programas deliberados de treinamento, o uso excessivo da IA pode reduzir as oportunidades de desenvolvimento do raciocínio clínico dos novos médicos.

Enfim, sabemos que a IA demonstrar  desempenho superior em uma tarefa cognitiva não é o mesmo que superioridade no cuidado médico integral. Na Medicina, a maioria desses artigos em que a IA ultrapassa o conhecimento médico são simulações, apresentam fragilidades importantes em cenários reais e atípicos. Exame físico ainda é muito limitado. Sem mencionar o risco de alucinações, presente em modelos de linguagem e variável conforme o sistema, a tarefa e o contexto”.

O que mais importa é que precisamos encontrar caminhos seguros para o uso da IA com nossos pacientes. Que sejam eficazes, auditáveis, equitativos e clinicamente úteis.

Portanto, como o Dr. Francis W. Peabody citou no mesmo periódico, o JAMA, em 1927, “O segredo do cuidado do paciente está em cuidar do paciente.” Precisamos que Médicos, reguladores e educadores comecem a repensar urgentemente sobre responsabilidade, regulação e formação médica no uso ético, preciso e assertivo da IA na saúde.


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