
Enquanto sensores experimentais aprendem a ler glicose e cetonas pelo suor, o diagnóstico médico está saindo dos consultórios e clínicas e rumando para outra porta.
Dessa vez, não por meio de dispositivos no corpo(wearables). E sim por meio de empresas que reconstroem a cadeia inteira da prevenção como produto de prateleira. Com assinatura anual, fila de espera e experiência de usuário desenhada por fundadores que vieram do Spotify. Não da Mayo Clinic, por exemplo.
A Neko Health faz outra coisa, mas chega ao mesmo lugar.
Fundada em 2018 por Daniel Ek, cofundador do Spotify, e Hjalmar Nilsonne, CEO da empresa, a Neko levantou US$ 700 milhões na Série C em julho de 2026, com Lightspeed e O.G. Venture Partners liderando a rodada. Entre os investidores estão Mark Zuckerberg e Priscilla Chan. O primeiro centro nos Estados Unidos abre em 24 de setembro em Nova York, no SoHo. Há 25 mil pessoas na fila de espera local e mais de 350 mil registradas globalmente. Mais de 100 mil já foram escaneadas na Suécia e no Reino Unido.
O scan custa US$ 499. Dura cerca de uma hora. Cobre pele (mais de 2 mil imagens de alta resolução), composição corporal, coração, circulação e sangue, incluindo colesterol, hemoglobina glicada e marcadores inflamatórios. Sem radiação. Sem ressonância. Sem contraste. Todos os dispositivos projetados e montados internamente, em Estocolmo.
O resultado sai antes de o paciente ir embora. Se necessário, encaminhamento para especialista no mesmo dia. Cerca de 75% dos membros voltam para um segundo scan.
A Function Health foi fundada em 2021 por Jonathan Swerdlin e Mark Hyman, médico funcional e diretor médico da empresa. A empresa cobra US$ 365 por ano. O membro recebe mais de 160 biomarcadores laboratoriais por ciclo, duas vezes ao ano, com acesso sob demanda entre os ciclos. Mais de 200 mil membros pagantes em 2025, com crescimento de 450% ao ano.
Em maio de 2025, a Function adquiriu a Ezra e passou a oferecer ressonância magnética de corpo inteiro por US$ 499, cerca de um terço do preço anterior, com leitura por inteligência artificial em mais de 100 locais nos Estados Unidos. Em abril de 2026, comprou a Getlabs, plataforma de coleta domiciliar de sangue, levando o acesso para mais de 2.200 pontos entre laboratórios da Quest Diagnostics e coleta em casa. Em junho, a SuppCo, plataforma independente de avaliação de suplementos. Em julho, recebeu US$ 450 milhões em financiamento de crescimento da General Catalyst, oito meses depois de uma Série B que avaliou a empresa em US$ 2,5 bilhões.
Laboratório, imagem, coleta domiciliar e suplemento. Tudo num único plano anual.
Function Health e Neko Health não são concorrentes diretas. São sinais do mesmo movimento.
Uma empacota exames laboratoriais e imagem. A outra empacota escaneamento corporal e sangue. Ambas custam em torno de US$ 499. Ambas foram fundadas por empreendedores de tecnologia, não por médicos da academia. Ambas tratam prevenção como produto, com marca, escala e experiência de consumo.
Não são casos isolados. A convergência entre dispositivo, laboratório e clínica já está acontecendo em várias frentes. Um wearable de pulso oferece acesso a rastreamento oncológico. Um anel experimental mede bioquímica pelo suor. Plataformas inteiras reconstroem a prevenção fora do consultório. A fronteira entre essas coisas ficou borrada.
Um relatório da Morgan Stanley publicado em 2026 dimensiona esse mercado. Doenças preveníveis como diabetes e doença cardíaca custam US$ 1,4 trilhão por ano nos Estados Unidos. O gasto total com doenças crônicas, incluindo produtividade perdida, chega a US$ 3,4 trilhões anuais. O mercado de diagnósticos diretos ao consumidor dobrou desde 2021 e já está em US$ 4 bilhões, com projeção de crescimento de até 20% ao ano.
34% dos americanos fizeram ao menos um exame laboratorial voluntário nos últimos três anos. 41% já usam algum dispositivo vestível de saúde.
A demanda existe. As pessoas querem saber mais sobre o próprio corpo e estão dispostas a pagar por isso.
Dispostas e capazes são coisas diferentes.
US$ 499 por um scan ou US$ 365 por ano em biomarcadores não são preços para quem mais precisa de triagem. O próprio relatório da Morgan Stanley indica que a adoção se concentra em consumidores mais jovens e de renda mais alta. O perfil de quem consome diagnóstico preventivo é, em grande parte, o de quem já tem acesso à medicina convencional.
Isso não invalida o modelo. Redefine quem ele serve.
A lógica é a do Spotify aplicada ao corpo: escaneamento periódico, dados longitudinais, experiência desenhada para que a pessoa volte.
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