Hipócrates vai ter que empreender

4 de nov. de 2026 · @Francisco Madalosso de Bittencourt

A white lab coat and a tailored olive blazer hanging side by side on a single brass hook against a warm ivory wall (#F7F7EF), a stethoscope draped across both shoulders, soft morning light from a window, quiet and elegant composition, paleta FMB: gold and olive tones on a light ivory background, cinematic, high detail, square 1:1. No text, no logos.

Fui convidado para ministrar uma aula sobre Inovação e Empreendedorismo da Saúde, uma visão do que tem sido minha vida na e com a Medicina. Encontrei matérias com títulos assim: 30% dos estudantes de medicina da USP não querem ser médicos. Querem empreender.

Fui atrás da fonte. Não é pesquisa. O número saiu de uma fala de Giovanni Guido Cerri, professor de Radiologia da Faculdade de Medicina da USP, numa entrevista sobre os próprios alunos.

“Não é estatística. É sintoma.”

O sintoma também não é só na Faculdade de Medicina da USP. O relatório Clinician of the Future, da editora Elsevier (2023), ouviu mais de 2 mil estudantes de medicina e enfermagem de 91 países. Entre os de medicina, 54% veem o curso como trampolim para uma carreira na saúde longe do atendimento direto. Nos Estados Unidos, 63%.

Um em cada quatro estudantes de medicina americanos pensa em desistir do curso. Os números foram repercutidos pelo The Health Care Blog e pelo Becker’s. A ressalva: o levantamento é de uma editora e a pergunta é do tipo que convida o sim.

Intenção não é o mesmo que comportamento. No Reino Unido, 48% dos formandos de medicina consideravam uma carreira fora da clínica (Brady e colaboradores, 2018). Já entre os alunos de MD/MBA nos Estados Unidos, 100% pretendiam fazer residência (Hollis e colaboradores, Journal of Surgical Research, 2020).

Quem estuda negócios dentro da medicina, pelo visto, ainda quer o jaleco.

Então por que o aluno desconfia?

Há médicos demais saindo de escolas e escolas ruins e a IA está mudando o trabalho clínico.

Em 2025 eram 494 escolas e 50.974 vagas por ano, cerca de 80% em instituições privadas. O levantamento é da Faculdade de Medicina da USP, com Mário Scheffer, professor de Medicina Preventiva. No Enamed 2025, exame do MEC, 107 dos 351 cursos avaliados tiraram nota 1 ou 2.

Na outra ponta, um ensaio randomizado com 50 médicos, publicado no JAMA Network Open em 2024, testou o GPT-4 em casos clínicos simulados. Sozinho, o modelo fez 16 pontos percentuais a mais que os médicos. Os médicos com acesso a ele não melhoraram. Eram casos escritos, sem paciente na frente.

O que podemos concluir? O ensino médico está ultrapassado. A forma de gestão na área médica está sendo enxergada de maneira enviesada. O médico está virando commodity.

Para quem se formar daqui a cinco ou seis anos, a dificuldade tenderá a ser enorme para viver de salário num hospital ou de consultório próprio. O futuro que o calouro sonhou não existirá mais na formatura. O médico, “commoditizado”, deixará de ser o centro da medicina.

Sobram, a princípio, dois caminhos. Virar figurante mal pago e descartável, candidato a burnout em algum hospital que tenha espaço para contratação. Ou entregar uma versão mais moderna do que o nosso juramento pede: acesso a uma medicina humanista, centrada nas necessidades das pessoas. Sem o modelo antigo, que exigia cada vez mais médicos para cada vez mais pacientes. Esse não volta.

No agregado, o Brasil ainda tem 2,98 médicos por mil habitantes, abaixo da média da OCDE, de 3,70 (Demografia Médica no Brasil, 2025), mas o maior problema não é esse. Dentro de poucos anos, essa média suplantará em muito a da OCDE: a projeção é de mais de 1,15 milhão de médicos na próxima década. Sobra médico em Vitória e falta no Norte. E 40,9% não têm especialidade. É o generalista sem residência quem já vive como commodity.

Falo com interesse declarado: sou cofundador de uma healthtech, a DonnaSafe.

A versão moderna do juramento existe. É a Declaração de Genebra, atualizada pela Associação Médica Mundial em 2017.

O médico hipocrático do: “FOMENTAREI a honra e as nobres tradições da profissão médica” precisará se reinventar para uma versão “Médico de tecnologias e empreendedorismo”.

Fomentar a tradição deve se manter, mas a visão de mercado tem que mudar.

Kevin Kelly, cofundador da revista Wired, ajuda a ver para onde em The Inevitable (2016). Por muito tempo, o trabalho só se organizou de duas formas. A empresa, que na saúde é o hospital. E o mercado, que são os consultórios disputando pacientes.

A empresa tem muros. Junta gente que rende mais junta do que sozinha, mas só entra quem é contratado. O mercado tem fronteiras porosas. Ninguém pede licença para abrir consultório e uma “mão invisível” leva o paciente até ele.

A terceira forma, a nova, é a plataforma: uma base sobre a qual outros constroem produtos e serviços. Empreender é, por exemplo, criar uma. A saúde vai, provavelmente, passar por ela. E, para isso, está sendo idealizada uma forma de gestão da saúde semelhante à do mercado bancário, a Open Health.

Isso é basicamente trocar o produto: sai o plano, entra o acesso.

O modelo de saúde atual está fadado ao insucesso. No Brasil e no mundo. A ignorância e a ineficiência serão os propulsores dessa nova saúde. O usuário é um ente obscurecido por elas dentro desse sistema. Ele está lá, ele existe, mas ninguém se importa. Não tem acesso à saúde eficiente, não tem posse dos seus dados – aliás, ninguém tem, apenas frações deles.

Em 20 de outubro, escrevi aqui que dado de saúde não precisa de dono. Precisa de posse. Continua valendo.

Tornar o sistema inteligente é trazer inteligência para ele. Não (só) a artificial, mas gestão de dados. Open Health pode ser uma solução, mas ainda engatinha. Embora eu enxergue com olhos estrábicos essa visão de futuro: um deles olha para aquela pessoa com condições sociais e financeiras que poderá “escolher” quem cuidará de sua saúde. O outro enxerga mais da metade dos brasileiros que sobrevive diariamente (infelizmente e cada vez mais).

Cerca de três em cada quatro brasileiros não têm plano de saúde. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) contava 53,2 milhões de beneficiários em agosto de 2026, num país de mais de 210 milhões.

Estrabismo tem correção. Só que alguém precisa operar. De preferência, um médico.

Francisco Madalosso de Bittencourt é cirurgião plástico, mestre em computação aplicada, professor de Saúde Digital na Universidade de Passo Fundo (UPF), membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e cofundador da DonnaSafe.


Deixe um comentário